Resquícios de Milão - UOL Blog
Resquícios de Milão

  



2005

Até daqui a pouco



  10h14 PM [   ] [ envie esta mensagem ]




NATAL

 

Somos consumidos pelas nossas famílias, muitas vezes por conceitos que descordamos. Vi nessa época de natal pessoas alucinadas, sofrendo por essa data. Pessoas sós que não querem lembrar que estão sós. Pessoas que foram rejeitadas pelas famílias pela sua opção sexual. Pessoas que lembram de outras pessoas queridas que morreram num tempo próximo. 

 

Pessoas que não tem o que comer, pessoas que gastam mais do que deveriam, pessoas que têm de suportar a data católica enquanto são de outras religiões.

 

Somos obrigados a recordar. Pessoas obrigadas a recordar que perderam um filho.

 

Unem-se as famílias e o final é igualzinho o daquele filme “Família Serpente”. Abraçamos, beijamos, comemoramos o tal do nascimento de Cristo, sem nem ao menos ter a opção de não acreditar no menino Jesus.

 

Perdemos muito tempo com essa hipocrisia insuportável, ao invés de realmente amarmos os nossos amores.

 

Aprendi que todas as famílias são exatamente iguais. Todos têm uma tia chata, um tio louco, um primo doente. 

Todos têm uma tia querida, um avô falecido, um ente distante.

 

E continuamos a fazer de conta que o natal é uma data feliz. Talvez seja importante lembrar das nossas dores remotas esquecidas na nossa memória. Lembrar daquela discussão inútil que sugou todas as suas energias com aquela sua nora que você não suporta. Não esqueça que ela também não suporta você.

 

Que não existe uma pessoa 100% boa ou uma pessoa 100% má. Por que não olhar para a parte gostosa da compatibilidade da nossa alma?

 

Por que criticar a sua cunhada que engordou uns 100 Kg nesse ultimo ano? Por que não olhar para a sua alma e compreender os seus erros? Talvez porque o mais divertido seja o dia seguinte da festa. As fofocas alucinatórias ...

 

E as amantes? As amantes que vivem no horário comercial e que esperam pacientemente que seu amor deixe sua família (como ele promete há anos) e passam o natal esperando pelo menos o telefone tocar?

 

Vocês devem dizer que ela se submeteu aquela condição. Verdade. Mas lembrem-se que todas as histórias têm diversos pontos de vista.

 

Basta escolher o seu.

  04h42 PM [   ] [ envie esta mensagem ]




Merry merry x-mas !!

 

 

E que 2005 seja muuuuitooo melhor!!!



  01h10 PM [   ] [ envie esta mensagem ]




PALADAR

Sempre atrás das coisinhas das quais estava acostumada, nada me satisfazia. Matei saudades de um bom japonês, peixes e ... falta alguma coisa.

 

Foi hoje que descobri o gosto da saudade. O gosto literal do nosso paladar brasileiro. Não entendia porque havia tantos potes daquele mesmo produto na geladeira.

 

Recusei a sua ingestão até o dia de hoje. Não havia recusado por algum motivo em particular, mas simplesmente por talvez não lembrar mais do gosto.

 

Como saudades das pessoas.

 

Vi que mudaram a sua embalagem. Não gostei ou não sei se ainda não me acostumei: afinal tudo na vida é feito de hábitos e costumes, inclusive as leis...

 

Uma única chance de degustação e: me apaixonei. Comi metade do pote (só não acabei por vergonha, talvez de mim mesma).

 

Não conseguia mais parar, veio aquele sabor de Brasil, aquele sabor que estava faltando. Um sabor especial, único, de infância, de saudade.

 

Fresquinho, experimentei com pão, salada, frango, peito de peru. E ele lá, firme, forte e fiel: excelente com tudo. Incrível o jogo de cintura dessa nossa criação. Fica ótimo com qualquer coisa, inclusive com bolacha de maisena!!

 

É, ele mesmo.

 

Tentei trai-lo por outros no decorrer desse ano, mas percebi que ele mora no inconsciente do meu prazer, no sabor infantil.

 

Me entreguei e degustei cada momento.

 

Relembrei das milhares de combinações que já fiz, que já fizemos.

 

É ele mesmo: o nosso magnífico requeijão.



  09h47 PM [   ] [ envie esta mensagem ]




ETÊ ... ETÊ ... ETÊ ... ETÊ ...

 

Aí, quando a gente pensa que está em casa, na segurança e no conforto dos doces abraços, nos surpreendemos com a reação de algumas pessoas.

 

Definitivamente me sinto uma etê. Talvez não deva me sentir, talvez eu realmente seja.

 

Mas a tranqüilidade chega quando compreendemos os porquês. Por mais diversos que eles sejam.

 

Nos questionamos sobre coisas óbvias.

 

E as respostas vêm muitas vezes das formas mais inusitadas. Tive um sonho maravilhoso.

 

Sonhei que tinha levado um soco no meio da cara. Esse soco tinha sido dado com tanta, mas tanta força que deformou meu nariz, e o lábio superior.

 

Lembro da dor pós-soco e da deformação do meu rosto.

 

Desesperada, resolvi curar a (da!!) porrada que levei no meio da cara.

 

E foi literalmente isso que vivi esse ano lá em Milão. Muitas vezes procuramos esses socos. E na maioria das vezes as pessoas se colocam vítimas das porradas levadas.

 

Não somos vítimas. Somos a mera conseqüência de nossos atos.

 

Não tinha idéia que seria assim difícil voltar. Até quando entendi que não voltei. Que isso daqui é uma passagem e que quero (muito!) aproveitar com todos vcs. Férias! Férias! Férias!

 

Fora a parte do sonho, a tal da história do sapato alto – aquela em que descobri que rebolava pois na verdade sou manca) causou realmente diversas repercussões. Sessões eternas de RPG.

 

Difícil aceitar que estamos ficando velhos.

Difícil aceitar que não somos vítimas.

  04h41 PM [   ] [ envie esta mensagem ]




FÉRIAS?

 

Férias no Brasil: o sonho de milhares e milhares de pessoas.

Na Itália eu brincava que o meu maior sonho era ser uma turista do Brasil. Poder vir para cá e viajar, conhecer um Brasil que inclusive eu tenho nos sonhos.

 

Mas fui recebida pelo trânsito, pela preocupação da cidade e com as inovações da nossa querida Marta em São Paulo (que louuucura!).

 

E férias são férias. Não viver a vida alheia. Sinto que não estou aqui. Me questiono se deveria estar.

 

Problemas práticos, como não ter locomoção, morar longe, não ter celular, não trabalhar e ter no inconsciente o problema natural das responsabilidades ... resultado: avestruz.

 

Foi quando recebi o telefonema de uma amiga (sim, Miga, vc mesma) dizendo, na maior tranqüilidade e compreensão desse meu isolamento, que nos acostumamos a ser e ficar sós. Não estamos mais acostumados a ter a possibilidade de ter amigos a nossa volta. Fica tranqüila, isso volta. E é bom demais. Morar fora sozinha causa alguns efeitos colaterais ...

 

É natural mesmo esse momento de adaptação?

 

Nunca imaginei que eu poderia viver isso. Sentir que sou um ser estranho na minha cidade natal.

 

Abri espaço e fui jantar com um amigo. Meu Deus, que saudades. Que saudades e que inacreditável estar ao lado de um carinho tão grande. De um lugar aconchegante, de escutar e receber palavras que há tempos não escutava. Fiquei com vergonha da minha forma avestruz.

 

Mas quero muito, com todo o meu coração, viver com vcs. Aproveitar esses minutos para sentir esse amor quase esquecido.

Mas guardado no coração.

 

Calma gente, tem tempo. Muito tempo.

Aprendi que a vida é longa.

  06h32 PM [   ] [ envie esta mensagem ]




CHEGADA OU DESPEDIDA?

 

 

Finalmente apartamento vazio. Aperto no coração, a última piadina, degustada ao lado do meu amigo, na mesa já sem pratos.

 

O táxi chega, ele me ajuda (graças ao Nosso Senhor Benedito Santo das Malas!) com aqueles quilos em excesso. Pego o ônibus e as lágrimas começam a escorrer. 

 

Guarulhos me esperava.
Lotado: mas só. 
Saio pingando e vou para o táxi. Dessa vez fui esperta e paguei antes de entrar!

 

Vou a caminho de casa analisando as mudanças inexistentes na nossa querida São Paulo.

 

Chego em casa, não tenho a chave. Ninguém me espera: surpresa e susto absoluto. Repentinamente me deparo com um portão que inexistia na porta de casa. Coração a milhão.

 

Largo todos os 39.857.402 quilos de mala na rua, pulo o portão e chego no sino, finalmente na porta de entrada.

 

Toco desesperadamente, sem saber o que falar ou o que fazer. Todos os meus planos para um surpresa perfeita foram esquecidos. Vejo minha mãe, com traços nítidos de mau humor por conta do sino insuportável. Ela sobe, arregala os olhos e me olha. Me senti a própria miragem no deserto do Saara.

 

Não sei qual era a minha expressão. Mas eu, trancada do lado de fora da casa, vejo que ela se gira e sai correndo gritando.

 

Indignada, fiquei trancada e imobilizada do lado de fora de casa. Vejo meu pai, que aparece gritando. No meio dos seus gritos ele perguntava “o que aconteceu?”. Minha mãe, num tom mais alto berra “a Camila!”. Ele, assustado e sem entender absolutamente nada, responde “que Camila??!!”.

 

Observando aquela cena, realizei que não tinha sido uma boa idéia a tal da surpresa. A tal da surpresa causou reações adversas do meu previsto diagnóstico.

 

Mas me enganei.

 

Foi quando aquela porta foi aberta, e fui recebida com todos aqueles abraços não vistos e tão desejados depois de tanto (mais t-a-n-t-o!) tempo fora.

 

Que saudades.



  04h15 PM [   ] [ envie esta mensagem ]





 
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